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Cannes 2003
Criado quarta-feira, 14 de Maio de 2003
Última actualização domingo, 25 de Maio de 2003
 
DR

Gus Van Sant - "Elephant"
Por Vasco Câmara
14.05.2003
O ano passado, Cannes foi a rampa de lançamento do documentário “Bowling for Columbine”, de Michael Moore. Diz-se que um dos acontecimentos da edição 2003 vai ser a exibição, em concurso, de “Elephant”, que Gus Van Sant fez para a cadeia americana de televisão por cabo HBO, inspirado nos acontecimentos trágicos do liceu de Columbine em 1999 (em que dois alunos mataram a tiro vários colegas e se suicidaram a seguir).
 

Não é documentário, mas também não é totalmente ficção: 1500 estudantes de liceu responderam à chamada para um “casting” e 200 foram entrevistados, contando as suas histórias típicas de estudantes americanos. Baseado nesses testemunhos, “Elephant” recria um dia na vida de um liceu, algumas horas antes de um massacre – o liceu como reprodução das contradições e da violência da sociedade americana. Depois do seu “flirt” com o “mainstream” de Hollywood (“Disposta a Tudo”, “O Bom Rebelde” ou “Finding Forrester”), Gus Van Sant recria-se como autor experimental.

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Palma de Ouro
"Elephant", de Gus Van Sant
Vincent Gallo: Easy Rider
Quando um filme se transforma no trauma de um festival — do género: "onde estavas tu no dia em que foi exibido 'The Brown Bunny'?" —, esse filme só pode ter sido um dos seus acontecimentos. E o seu realizador "a figura".
Vários dias após a sua exibição, "The Brown Bunny" continuava a surgir nas conversas e nos jornais, alvo de chacota ou elevado a ícone alternativo.
Os favoritos e algumas catástrofes
A selecção de filmes em competição não agradou a muita gente, porque houve demasiado espaço, dizem alguns, dado a "coisas" inesperadas. Mas uma série de situações criaram um espaço — a ausência de alguns títulos que não ficaram prontos foi decisiva — para se verem filmes na secção principal que, em edições anteriores, estariam relegados para secções como o Un Certain Regard ou mesmo a Quinzena dos Realizadores, que se permitem mais tiros no escuro. Por isso, a questão, hoje, é saber até onde é capaz de ir o júri presidido pelo cineasta francês Patrice Chéreau. Se vai coroar os polémicos "Elephant", de Gus Van Sant e "Dogville", de Lars von Trier (o favorito, embora a Palma de Ouro, em 2000, a "Dancer in the Dark", possa jogar contra ele), ou se vai optar pelo clássico "Mystic River", de Eastwood, ou pelo "sucesso de público" do festival que é "Les Invasions Barbares", de Denys Arcand.
"Bright Leaves": a estrada do tabaco chega a Hollywood
Um aviso aos programadores portugueses de festivais ou de iniciativas dedicadas ao documentário: há um filme chamado "Bright Leaves", de Ross McElwee, um professor de cinema em Harvard, cujo trabalho como documentarista, patrocinado por instituições como as fundações Guggenheim e Rockfeller, é constituído por meditações autobiográficas, crónicas da sua vida. Sendo também assim o desarmante e melancólico "Bright Leaves" (Quinzena dos Realizadores), é um "home movie" que segue os espaços da América e dos seus mitos.
Errol Morris entrevista Robert MacNamara
O encontro que criava expectativa: Errol Morris, cineasta conhecido pelos seus retratos a figuras excêntricas ou polémicas, entrevistou aquele que foi secretário de defesa de John F. Kennedy e de Lyndon Johnson, Robert MacNamara.
E assim falou Vincent: "Sou uma pessoa mesquinha"
Apesar do mito e do que se diz e escreve dele, há sempre coisas a aprender com Vincent Gallo. Por exemplo, que é uma "pessoa mesquinha". Ontem, não fez cerimónias, e disse mal de Kirsten Dunst ou de Wynona Rider, que estavam previstas para entrar no filme como duas das raparigas com quem Bud se cruza no seu percurso; com nenhuma das actrizes o encontro foi frutuoso, mas com a frágil Wynona, de quem Gallo foi o protector na rodagem de "A Casa dos Espíritos", foi especialmente cruel – "a minha ideia era ter Winona no filme; acredito que ela roubou mesmo aquela loja, podia ser bom para 'Brown Bunny'".
Avati, Babenco e um transsexual em concurso
Sem golpes de teatro, os títulos sucedem-se na competição.
Festival de Veneza: Tarantino, os Coen e Wong Kar-wai?
Quando foi anunciado o programa de Cannes, imediatamente se gerou uma expectativa em relação à 60ª edição do Festival de Veneza: a ausência na Croisette dos últimos filmes de Tarantino, dos irmãos Coen ou de Wong Kar-wai significaria que eles estariam automaticamente no Lido. Mas foi precisamente em Cannes que o director do festival de Veneza, Moritz de Hadeln, veio temperar a excitação: "Só porque esses filmes não estavam prontos para Cannes, não significam que todos eles estarão prontos para Veneza".
Arnold Schwarzenegger: um robô na Croisette
Uma das máquinas promocionais mais visíveis no Festival de Cannes foi a que promoveu o lançamento, no Verão americano, de "Terminator 3- Rise of the Machines", que foi realizado por Jonathan Mostow, e que vai marcar o regresso de Arnold Schwarzenegger. Dois robôs a apontar "mãos ao alto" aos transeuntes da Croisette e música em fundo anteciparam a aparição de Arnold, à frente de um hotel que foi transformado em "plateau" de cinema: portas de metal como num filme de ficção científica, posters holográficos, em que o rosto de Schwarzenneger se dissolve no rosto de uma mulher-robô (eis o "plot" do filme).
José Álvaro Morais sopra o vento do norte: "Quaresma"
Depois de "A mulher que acreditava ser presidente dos EUA", de João Botelho e de "Vai-e-vem", de João César Monteiro, o terceiro português em Cannes foi "Quaresma", de José Álvaro de Morais (Quinzena dos Realizadores). Onde sopra o vento do norte, depois de, no anterior "Peixe-Lua", se ter sentido o apelo do sul.
François Ozon em águas mortas
Ainda com a aura dada pelos quatro milhões de franceses que viram "8 Mulheres", François Ozon fez a sua estreia na competição de Cannes com "Swimming Pool". Desta vez, apenas com duas mulheres: uma escritora de policiais em bloqueio artístico (Charlotte Rampling) que se isola numa "villa" do Sul de França, e uma adolescente (Ludivine Sagnier) que lhe aparece para perturbar o retiro.
"Uzak/Distant": Istambul, o deserto branco
O turco Nuri Bilge Ceylan, 44 anos, não é propriamente um desconhecido: no Festival de Berlim de 2000, a sua segunda longa-metragem, "Clouds of May", foi um dos melhores filmes em concurso (e não figurou no palmarés). Em Cannes 2003, Ceylan já mostrou aquele que ficará, também, como um dos melhores filmes da competição: "Uzak/ Distant".
links
Hector Babenco - "Carandiru"
Três milhões de espectadores viram “Carandiru” no primeiro mês de estreia no Brasil e assim se chegou ao novo fenómeno cinematográfico pós-”Cidade de Deus”.
Lars von Trier - "Dogville"
Três anos depois da Palma de Ouro a “Dancer in the Dark”, nova consagração para Lars von Trier? Passado que está o movimento Dogma 95, e as suas regras de puritanismo cinematográfico, o dinamarquês continua a querer abrir um mundo de possibilidades que satisfaçam as suas angústias criativas.
Gus Van Sant - "Elephant"
O ano passado, Cannes foi a rampa de lançamento do documentário “Bowling for Columbine”, de Michael Moore. Diz-se que um dos acontecimentos da edição 2003 vai ser a exibição, em concurso, de “Elephant”, que Gus Van Sant fez para a cadeia americana de televisão por cabo HBO, inspirado nos acontecimentos trágicos do liceu de Columbine em 1999 (em que dois alunos mataram a tiro vários colegas e se suicidaram a seguir).
Vincent Gallo - "Brown Bunny"
O menino querido do “underground”, o caprichoso do “cool”, o actor, o artista plástico, o cantor, o realizador... Vincent Gallo está em competição pela primeira vez em Cannes, com a sua segunda longa-metragem, “Brown Bunny”. Diz a sinopse que é a história da trágica perda de um homem, motoqueiro, que ficou sem o amor da sua vida.
Filmes da Semana da Crítica
A Semana da Crítica foi criada em 1962 pelo Sindicato Francês dos Críticos de Cinema, uma organização que tem como objectivo assegurar a liberdade da informação e da crítica e defender a arte cinematográfica. É a mais antiga das secções paralelas do Festival de Cannes e nela são apresentadas primeiras e segundas obras. Apesar de ser a menos mediatizada do certame, já serviu de trapolim para inúmeros realizadores, tais como o italiano Bernardo Bertolucci, os franceses Leos Carax e Arnaud Desplechin e o português António da Cunha Telles, que aí estreou mundialmente "O Cerco", em 1970.
Filmes da Quinzena
A Quinzena dos Realizadores é um autêntico festival dentro do Festival de Cannes. Nasceu em 1969, na sequência do boicote ao festival oficial durante os acontecimentos de Maio de 68. Foi criada sob a responsabilidade da Sociedade dos Realizadores de Filmes e sob o lema "todos os filmes nascem livres e iguais". É um espaço de liberdade, sem competições nem censura, e uma vitrine de todas as cinematografias mundiais.
Júri da Caméra d’Or
O júri da Caméra d'Or premeia a melhor de todas as primeiras obras exibidas em todas as categorias do certame.
Júri das Curtas-metragens e da Cinéfondation
É o júri responsável pela avaliação e atribuição dos prémios das secções Cinéfondation, uma secção paralela que desde 1998 apresenta curtas e médias metragens de escolas de cinema na Sala Luis Buñuel, e das curtas-metragens em competição na Selecção Oficial. Este ano o júri é presidido por Emir Kusturica, que já conquistou por duas vezes o prémio mais importante da croisette. Em 1985, recebeu a Palma de Ouro por "O Pai foi em Viagem de Negócios" e, dez anos mais tarde, por "Underground".
Júri das Longas-metragens
É este o júri que avalia as longas-metragens em competição da Selecção Oficial, atribuindo a Palma de Ouro e os restantes prémios principais do certame. Este ano, o júri é presidido pelo realizador francês Patrice Chéreau, que assim sucede a David Lynch. Em 94, o épico de Chéreau, “A Rainha Margot” recebeu o Prémio do Júri.
Cinéfondation
Un Certain Regard
Curtas-metragens em Competição
Longas-metragens Fora de Competição
Longas-metragens em Competição