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Yasser Arafat
Criado sábado, 23 de Outubro de 2004
Última actualização sábado, 13 de Novembro de 2004
 

Entrevista
Mustafa Barghouti: "Esta é a nossa oportunidade de avançar para a democracia"
Por Alexandra Lucas Coelho
08.11.2004
É com uma citação de Daniel Barenboim, o pianista e maestro de origem israelita, que Mustafa Barghouti, médico, 50 anos, afirma a sua esperança na capacidade de ser uma alternativa aos pesos pesados da Fatah, partido de Arafat, e do movimento radical islâmico Hamas, no futuro dos palestinianos. Barenboim - que com o ensaísta de origem palestiniana Edward Said fundou um projecto de incentivo e cooperação para jovens músicos israelitas e palestinianos - já esteve em Ramallah em mais de uma ocasião, a participar em acções organizadas pelo movimento liderado por Mustafa Barghouti, a Iniciativa Nacional Palestiniana (INP).
 

Formada em 2002, a INP apela no seu programa a eleições livres "como factor essencial para estabelecer um Estado palestiniano". Definindo-se como uma plataforma laica, defende reformas estruturais que eliminem "abuso de fundos, abuso de poder e de autoridade". Afirma o seu empenho na promoção de direitos iguais para as mulheres, na liberdade dos prisioneiros políticos, na aplicação de todas as resoluções da ONU quanto à retirada de Israel dos territórios ocupados, e numa "solução justa" para o problema dos refugiados.
Na sede do seu movimento no centro de Ramallah, ontem à tarde, Mustafa Barghouti mostrou-se optimista quanto à oportunidade que o pós-Arafat representa. Admite que o seu parente Marwan Barghouti, líder simbólico da Intifada, venha a emergir como líder, caso Israel o liberte da prisão onde o colocou em 2002. Mas perfila-se ele próprio como candidato às eleições.
Estamos perante o fim da era Arafat. O tempo da transição já começou?
O tempo da transição já começou há muito. Mesmo antes da doença de Yasser Arafat já nos estávamos a preparar para eleições, com a participação dele. Portanto, toda a gente sente que há uma necessidade de mudança, no sentido de reformas claras, de uma democratização.
Em termos práticos, talvez isto seja acelerado pela doença do Presidente. Há um desafio: que a sua provável ausência crie um grande vácuo. E há uma oportunidade: que esta seja a nossa hipótese de avançar para a democracia. Mas a questão é se a comunidade internacional nos vai ajudar a fazê-lo, visto estarmos sob total ocupação. Só com o apoio, a presença internacional podemos conduzir eleições livres, democráticas, num processo justo, sem a intervenção israelita. Portanto, é preciso que a comunidade internacional providencie condições. E isto é um teste para todos aqueles que falam sobre reformas democráticas: se realmente vão apoiar a democracia na Palestina.
Em termos concretos, qual é o seu apelo à comunidade internacional?
Que envie observadores; que assegure que Israel não bloqueia o processo eleitoral; que assegure que Israel remove os obstáculos ao registo de eleitores em Jerusalém e muitas outras áreas. Que a comunidade internacional declare muito claramente que defende a opção democrática na Palestina e exerça pressão para que Israel retire das suas posições. Essas posições são obstáculos à possibilidade de conseguir a paz porque, basicamente, Israel substituiu a solução dois Estados pela ideia de criar "apartheid" e guetos.
Quando julga que será possível realizar eleições?
A lei é muito clara. Se algo acontece ao Presidente, há um período de transição, durante o qual o líder do Parlamento assume a liderança por 60 dias, e até ao fim deste período devem ter lugar as eleições para Presidente.
Este é um momento de grande incerteza. O líder do Parlamento, Rawhi Fattouh, está ausente da boca de cena. O primeiro-ministro Ahmed Qorei e o vice-líder da Organização de Libertação da Palestina (OLP) Mahmud Abbas é que aparecem a conduzir a liderança. Anteontem, Qorei esteve em Gaza, reunido com várias facções palestinianas, incluindo o Hamas e a Jihad Islâmica. Como é que avalia estes esforços e o eventual apelo a um cessar-fogo que terá sido feito?
Também tivemos reuniões hoje [ontem] das forças políticas de Ramallah. Queremos manter a unidade nacional e evitar problemas internos - e por isso há um apelo a uma espécie de conselho nacional ou liderança unificada. Ao mesmo tempo queremos avançar para eleições, e a liderança unificada seria útil para garantir que o processo é justo. A questão do cessar-fogo foi discutida várias vezes antes, e não é difícil de conseguir. Todos os grupos concordam com um cessar-fogo...
O Hamas não aceitará...
Não, não. Aceita. Eles estão preparados para isso. Na condição de que Israel também aceite. Não penso que seja difícil obter o acordo de todos os grupos para que se abstenham de qualquer acção militar ou ataques contra civis. Se for possível conseguir que Israel pare as acções militares contra os palestinianos, e, especialmente, o assassinato de diversos líderes.
Há quem preveja que o Hamas aproveitará a transição para tentar conquistar o poder. Partilha o receio, num cenário mais pessimista, de que este vazio de poderes leve a lutas entre os palestinianos?
Não penso que haja muitos palestinianos que queiram ver uma guerra civil. Creio que todos os grupos compreenderam que não é do seu interesse ter qualquer tipo de luta interna. Porque o resultado final só beneficiaria Israel. Tendo a maior força militar da região, Israel tomaria conta de tudo.
É sua convicção que o Hamas e a Jihad Islâmica se vão empenhar nesse esforço?
De não haver lutas? Penso que sim. Não é do interesse deles. Estão a tentar ganhar poder? Claro, ter uma fatia maior, uma fatia na Autoridade Palestiniana, no governo. Quanto a mim, podem ter essa ambição, desde que toda a gente vá para eleições. E o resultado das eleições deve ser respeitado. Mas se concorrerem a eleições, Hamas e Jihad também devem respeitar a lei, que diz que nenhuma facção pode decidir individualmente conduzir operações militares.
O nome de Marwan Barghouti [líder simbólico da intifada, preso há dois anos e meio por Israel] tem sido muito falado ultimamente. A possibilidade dele ser libertado parece-lhe realista? De que se pode ter tornado do interesse de Israel libertá-lo? De que venha a emergir como um líder?
Penso que ele tem o direito de ser libertado, porque todo o seu julgamento foi ilegal, a sua prisão é ilegal. Também penso que está no direito de concorrer às eleições, como outros estão.
Mas crê que é uma possibilidade real?
Não sei, realmente. Não tenho informação suficiente. Gosta-se de especular sobre o sucessor, mas o sucessor deve ser escolhido pelas pessoas. As pessoas devem ter a oportunidade de escolher. Se é o que acontece em Portugal, na Grécia, em França, até em Israel, então é o que deve acontecer na Palestina.
Está preparado para concorrer às eleições?
Não decidi ainda. Temos de decidir enquanto movimento. Veremos. Mas os nossos nomes são mencionados frequentemente nas sondagens.
Admite que há uma forte probabilidade de se candidatar?
Ainda não discutimos esse assunto na nossa estrutura, portanto não posso admiti-lo. Se apelo à democracia tenho que ser democrata. Essa probabilidade é mencionada, de tempos em tempos. Se o nosso movimento decidir que politicamente é o mais certo, sim, serei candidato.
Se concorrer, como lidará com a realidade de a Fatah ser um peso pesado, ter a tradição de poder entre os palestinianos, enquanto a Iniciativa Nacional Palestiniana, o seu movimento, ser novo e não estar consolidado?
Como muitos grupos pró-democracia fizeram, em outros países: confiando nas pessoas. Estamos a lutar, enquanto movimento, não somos apenas um movimento novo...
Têm gente em Gaza?
Oh, sim, por toda a parte. Já visitámos 90 mil casas, com a colaboração de milhares de voluntários. Confiamos nesta grande maioria silenciosa que existe no meio, que nem pertence ao Hamas nem à Fatah. É uma grande maioria.
Não somos um movimento com grandes recursos, lutamos contra duas grandes montanhas de recursos, a do Hamas - como todo o seu apoio islâmico - e a da Fatah - que controla completamente o aparelho de Estado, e, de facto, o usa para as suas próprias necessidades como partido. Mas gosto do que Daniel Barenboim, o músico, uma vez nos disse: o impossível é mais fácil do que o difícil.

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