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Caso Moderna
Criado quarta-feira, 10 de Abril de 2002
Última actualização sexta-feira, 28 de Outubro de 2005
 
Manuel Moura/Lusa
A dilapidação do património da empresa de sondagens Amostra só poderá ser crime se os ofendidos se queixarem

Investigação diz que orçamento da Amostra "foi dilapidado"
MP não acusou Portas porque sócios da Amostra não se queixaram
Por António Arnaldo Mesquita
13.09.2002
Está explicado o mistério por que até agora o ministro de Estado e da Defesa, Paulo Portas, não foi acusado pelo Ministério Público (MP) pela sua acção enquanto gerente da empresa de sondagens Amostra. O MP apurou que "grande parte do orçamento" daquela firma foi dilapidado através da realização de "despesas que nada teriam a ver com o seu objecto". Embora haja quem sustente que a Amostra pode ser considerada uma empresa de fachada, grande parte do seu pecúlio foi obtido através de transferências a fundo perdido provenientes da Dinensino. O titular dos autos, Manuel das Dores, admitiu, todavia, que aquelas despesas "poderiam integrar, muito em abstracto, a prática do crime de infidelidade, previsto e punível pelo artigo 224 do Código Penal".
 

Trata-se de um ilícito de índole semipública e os sócios da firma (José Bourbon Ribeiro, actual chefe do gabinete do Ministro de Estado Paulo Portas, e Nuno Gonçalves, ex-chefe de gabinete de Manuel Monteiro e do grupo parlamentar em 1995) nunca manifestaram a intenção de se queixar. Perante esta omissão, o MP entendeu que não tinha "legitimidade para o procedimento criminal, motivo pelo qual não se pronuncia sobre aquele facto".

A revelação consta do processo da Universidade Moderna e antecede o libelo acusatório do MP. "Verifica-se dos autos que a Dinensino estabeleceu um protocolo com uma empresa privada denominada Amostra, no âmbito do qual entregou a esta a quantia de 91.514 contos [456.470 euros] para financiar o respectivo orçamento". "Da investigação efectuada", sublinha o MP, "apurou-se que grande parte do orçamento da Amostra foi dilapidado com a realização de despesas que nada teriam a ver com o seu objecto".

Portas convida sócios-fundadores
Em declarações aos investigadores, em 8 de Novembro de 1999, um dos fundadores da Amostra, Nuno Gonçalves, garantiu que Paulo Portas "foi sempre quem teve o controlo da firma". E revelou também que ele e o outro sócio, José Bourbon Ribeiro, foram convidados por Portas para fundar a Amostra. "Para não conotar a empresa de sondagens com um partido político" [o PP], explicou Bourbon.

Nuno Gonçalves, por seu lado, disse aos elementos da DCICCEF que o interrogaram "que lhe foi solicitado pelo dr. Paulo Portas que, a título pessoal, cedesse o seu nome para efeitos de registo da escritura de constituição da empresa". A proposta foi aceite por ele e por Bourbon e, à data da escritura, outorgaram ao agora ministro de Estado e da Defesa "poderes exclusivos de gerência, não tendo qualquer dos sócios poder de decisão".

Com um capital social de 400 contos, aquela empresa iniciou a sua actividade em 30 de Setembro de 1997 e foi financiada a fundo perdido pela Dinensino, com base num protocolo assinado no dia 1 daquele mês. Até ao fim do ano, facturou 40.108 euros (8041 contos). O que não inibia o gerente Portas de receber um vencimento líquido rondando os 600 contos e de, cinco meses depois, passar a guiar um Jaguar XJ 3,2, cuja prestação mensal de locação era de 323 contos.

Até ao fim da sua existência, em 1999, a facturação da Amostra ascendeu a 43.896 contos, recebendo da Dinensino 26.750 e 121.527 contos nos anos de 1997 e 1998, respectivamente. Os peritos do Núcleo de Assessoria Técnica da Procuradoria-Geral da República apuraram que só foram contabilizados na Amostra 26.750 e 64.764 contos, respectivamente. Isso indicia que se desconhece o destino de 56.763 contos. A situação ainda se poderá tornar mais delicada, uma vez que uma outra auditoria realizada após o afastamento de José Júlio Braga Gonçalves do cargo de reitor da Moderna estima que a Amostra deve 144.767 contos à Dinensino. E uma pergunta impõe-se: como o dinheiro não tem pernas para andar, então para onde foi?

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A carta de José Braga Gonçalves a Paulo Portas
Depois dos arguidos seguem-se as audições com mais de uma centena de testemunhas de acusação
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Eduardo Prado Coelho: Pontos dolorosos
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Alguns dados sobre o emaranhado em que se tornou o caso Moderna
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Durante mais de uma hora, José Júlio Gonçalves falou, a jorros, sem dizer nada de relevante.
Caso Moderna começa a ser julgado em Monsanto
Ao fim de três anos, sentam-se no banco dos réus os 13 acusados no caso Moderna, o último acto de um processo que começou pela denúncia de um desses homens à Procuradoria-Geral da República, em princípios de 1999. Numa investigação que durou mais de um ano, foi posto a nu um plano complexo.
Quem se senta no banco dos réus
Os nomes dos 13 arguidos envolvidos num dos mais complexos casos da justiça portuguesa dos últimos anos.
Sonhos de glória
Em Setembro de 1998, José Braga Gonçalves tentou comprar o Paço da Glória, um edifício do século XIX, perto de Arcos de Valdevez. O principal accionista da sociedade proprietária do imóvel, Maurício de Macedo, recusou vender mas aceitou ceder o edifício, por um período de três anos, mediante o pagamento de dez mil contos.
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Segundo a acusação, o clã Braga Gonçalves atribiu carros não apenas aos directores da Dinensino e aos seus colaboradores, mas também a pessoas totalmente alheias à Universidade Moderna. As marcas preferidas eram Audi, Volkswagen e Mercedes.
Empreiteiros "à la carte"
As relações de José Braga Gonçalves com os empreiteiros que realizaram obras na Universidade Moderna são uma peça central da acusação. Para os investigadores do processo, tanto este arguido como o seu pai, José Júlio Gonçalves, tinham um controlo férreo sobre a execução e fiscalização de obras, sem qualquer intervenção da restante direcção. E faziam-no alegadamente com o objectivo de obter proventos económicos a que saberiam não ter direito por serem à custa do património da Dinensino.
Dinheiro fatal...
A Universidade Moderna, que iniciou a sua actividade no ano lectivo de 1989/90, foi um negócio altamente lucrativo até 1996, enquanto a cooperativa que a dirigia, a Dinensino, teve como gestor José Vieira Machado. Em 1996, a Dinensino gerou mais de 813 mil contos de lucros, tendo crescido 60 por cento relativamente ao ano anterior.
Uma triste história em 13 actos
O resumo de um caso que abalou vários sectores da sociedade portuguesa.
José Braga Gonçalves, um director todo-poderoso
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Vital Moreira: O estranho caso da Universidade Moderna