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Timor
Criado quinta-feira, 16 de Maio de 2002
Última actualização quarta-feira, 22 de Maio de 2002
 
Darren Whiteside/Reuters

Independência de Timor
A independência vista do lado da solidariedade
Por Adelino Gomes
20.05.2002
Quase ninguém chegou ainda, mas eles já lá se encontram. Sentaram-se logo na primeira fila do lado esquerdo do altar mor, Rosalina Dias começava a primeira leitura do Livro dos Números: "O Senhor disse a Moisés: Fala a Aarão e aos seus filhos e diz-lhes: O Senhor te abençoe e te proteja".
 

Luísa Teotónio Pereira e Barbedo de Magalhães. As duas figuras mais mediáticas da solidariedade portuguesa com Timor. Luísa, a quem Xanana chamava "A grande Amiga", nas suas cartas clandestinas da prisão; Barbedo de Magalhães, o catedrático de Engenharia que colocou a Universidade do Porto na primeira linha do apoio internacional concreto à causa de Timor. No lado oposto, Xanana Gusmão e mulher, com Vieira de Mello, o brasileiro que assumiu os poderes da transição em nome das Nações Unidas, do lado esquerdo e, do lado direito, o presidente português, Jorge Sampaio e o primeiro ministro Durão Barroso.

Durante muito tempo serão Luísa e Barbedo - acompanhados de Pinto Pereira, da CDP como Luísa, de Carlos Gaspar, o homem da pasta de Timor-Leste durante os dois mandatos de Mário Soares e todo o tempo que Jorge Sampaio leva de Presidente da República, da Teresa Conceição jornalista da SIC que meteu férias para vir conhecer a terra de que tanto o pai lhe falava e o jornalista do PÚBLICO; os únicos em toda a bancada.

Rosalina representa de algum modo a dor de milhares de famílias: o pai foi preso e morto pelos indonésios aquando da invasão, há 27 anos. Combalida, a mãe morreria pouco depois. Conhecedor da sua história - Rosalina é secretária geral do Centro Juvenil Padre António Vieira de que ele é director - o português Rui Marques, a quem problemas de última hora retêm ainda na cidade - comove-se "até às lágrimas" ao vê-la a iniciar a liturgia da palavra da grande celebração religiosa que marca o início das cerimónias oficiais da independência.

Luísa Teotónio Pereira levantar-se-á no fim da missa para felicitar o maestro Simão Barreto, que durante dois meses, sem um dia de descanso, ensaiou o formidável coro de quase mil vozes que acompanha a missa, celebrada pelo enviado do Papa, Roberto Martino, e concelebrada entre outros pelos dois bispos timorenses e pelo cardeal patriarca de Lisboa.

"Nunca me preocupei muito com o tipo de festa que o povo ia viver neste dia. Para ser sincero, o que me preocupava era a libertação", diz Barbedo de Magalhães ao PÚBLICO. "Mas obviamente que é uma enorme alegria, o que sinto. Até porque a Indonésia e a ONU estão presentes neste acontecimento e esse era um dos objectivos que o trabalho solidário que eu e vários grupos; a CDPM, a Associação Paz e Justiça para Timor-Leste e as Jornadas da UP claramente perseguimos."

Entre abraços a amigos e refrescos para o calor que faz pingar os malai (estrangeiros), o antigo cônsul da Austrália em Timor, Jimm Dunn era, logo pela manhã, numa esplanada de Díli, a imagem da felicidade da importante facção australiana que sempre se manteve ao lado da luta dos timorenses contra a ocupação indonésia.

Cônsul em Díli desde o tempo de Salazar, presente no território durante parte da guerra civil de 1975, Dunn acha que o massacre de Santa Cruz e o prémio Nobel da Paz concedido a Ximenes Belo e a Ramos-Horta foram essenciais para a independência mas, na hora de escolher o facto decisivo que fez entrar este dia no calendário timorense, escolhe o antigo presidente Habibie, "esse estranho homem" que um dia surprendeu o mundo (indonésios e timorenses incluídos) ao anunciar que Jacarta aceitava um referendo sobre o futuro de Timor dentro da República Indonésia.

Discreta, andando de um lado para o outro nas traseiras de uma das bancadas laterais donde os convidados só avistam as cerimónias através de um dos ecrãs gigantes, Natasha Medden, 31 anos, ainda não percebe bem hoje como a sorte lhe permitiu estar na hora certa no lugar certo da solidariedade com Timor. Estudante francesa de Relações Internacionais nos Estados Unidos, começou a trabalhar para a causa nas vésperas da atribuição do Prémio Nobel ao bispo Ximenes Belo e a José Ramos-Horta. Os dois anos que se seguem vive-os num turbilhão de acontecimentos que a hão-de levar a Jacarta, ao trabalho, "sem descanso", com Xanana e finalmente a Díli. Hoje faz parte da equipa do Banco Mundial, esta noite em peso na celebração da independência, mas a experiência de Timor, diz ao PÚBLICO, permanecerá como algo de espantoso que aconteceu na sua vida.

Arnold Kohen, 52 anos, fundador da ONG "Humanitarian Project", declara-se maravilhado com aquilo a que assiste esta noite. Mas logo desvia o discurso para a muita gente "sem emprego" e que é preciso formar "para a vida produtiva e para a reconstrução".

Kohen, um judeu norte-americano que acompanha há longos anos Ximenes Belo, de quem escreveu uma biografia traduzida em português, mostra-se preocupado com os problemas orçamentais portugueses - "Portugal não pode ser deixado sozinho no seu apoio a Timor" - mas sobretudo com as consequências de um eventual atraso na ajuda ao desenvolvimento timorense pela comunidade internacional. "A Indonésia pode explorar as dificuldades e as milícias voltarão a criar problemas", avisa, citando preocupações do bispo Nobel.

Nas bancadas laterais, os homens e as mulheres da solidariedade internacional levantam-se, tiram fotos dos momentos mais importantes, não gostam de ouvir José Ramos-Horta dizer que a senhora Megawatti Sukarnoputri foi homenagear os seus heróis ao cemitério indonésio.

Para muitos a voz límpida de Barbra Hendricks a entoar na noite de lua em quarto crescente invertido a melodia "We shall overcome" representará o momento mais comovente da noite.

Será, porém, com o hastear da bandeira de Timor Lorosae que Rui Marques voltará a emocionar-se como quando ouviu Rosalina iniciar a Liturgia da Palavra. "Parecia a bandeira do meu país a subir", confessa Rui Marques ao PÚBLICO, feliz com "esta oportunidade fantástica de estar com os timorenses no dia da sua independência. "Com devidas e respeitadoras diferenças senti-a como se fosse do meu país. Como se fosse um cidadão desta causa".

Durante a tarde, ao dirigir-se à residência do embaixador português para o encontro da comunidade com Jorge Sampaio, Rui Marques avistou as fragatas que a Indonésia fez avançar para as mesmas águas com que, à frente do Lusitânia Expresso, ele se cruzara faz agora 10 anos e dois meses. "Tive a sensação estranha de voltar a um encontro próximo com os barcos indonésios. Mas também desta vez eles perderam a guerra".

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AUXILIAR
Mensagens de reconhecimento
EUA já tem embaixada em Díli
As incertezas do futuro
"Jamais, no passado, as Nações Unidas foram solicitadas a administrar um território na sua caminhada para a independência", disse ontem Kofi Annan perante as dezenas de milhar de timorenses que enchiam o imenso recinto de Taci Tolo, onde decorreram as cerimónias da independência de Timor Leste. Será que foram bem sucedidas?
Uma semana de festa
Dia 19

18h00 (10h00 de dia 19 em Portugal) Missa presidida pelo representante especial do papa, o bispo Renato Martino, em Taci Tolo, arredores de Díli. Inauguração do Parque Internacional.
Primeiro discurso de Xanana Gusmão como Presidente
Xanana Gusmão tomou posse como Presidente da República Democrática de Timor-Leste, perante o presidente do Parlamento Nacional, Francisco Guterres, que, momentos antes, proclamou o nascimento do mais novo país do mundo.
Este é o texto na íntegra do discurso do novo chefe de Estado, que saltou do inglês, passou pelo português e terminou em tetum.
Jorge Sampaio: "O dia da independência"
Hoje, quando passar a meia-noite, em Díli, será o primeiro dia de Timor-Leste como Estado soberano, livre e independente, um novo Estado de língua portuguesa.
A letra controversa
"Pátria, Pátria, Timor-Leste, nossa Nação. Glória aos heróis da nossa libertação./ Vencemos o colonialismo, gritamos: abaixo o imperialismo. Terra livre, não, não, não à exploração. / Avante unidos firmes e decididos. Na luta contra o imperialismo o inimigo dos povos, até à vitória final. Pelo caminho da revolução."
Timor em números
População - 787.342 pessoas (2001)
Cinco séculos
Eis as principais datas de Timor-Leste desde a colonização portuguesa e a ocupação indonésia, até à independência.
Sítio pessoal de Xanana Gusmão
Timor.org
East Timor Action Network
www.etan.org
Federação Internacional para Timor-Leste
Human Rights Watch
Amnistia Internacional
Programa de Desenvolvimento da ONU
Eleições em Timor
UNTAET
www.un.org/peace/etimor/etimor.htm
Governo de timor
Infografia
Texto final da Constituição (em .pdf)
Centenas de milhões de dólares para Díli
Os doadores internacionais, reunidos em Díli, decidiram oferecer ao novo país 360 milhões de dólares (414 milhões de euros). O dinheiro deverá ajudar Timor-Leste, o mais pobre país da Ásia, a preparar a independência das Nações Unidas, que administram o território desde 1999. Mais de 25 países estiveram reunidos durante dois dias com o Governo de transição, as agências da ONU e instituições financeiras para discutir um orçamento para os próximos três anos.
O sândalo pode ser o segundo petróleo
Timor foi em tempos conhecida como a cheirosa ilha do sândalo. Uma árvore perfumada que foi dizimada pelos portugueses e pelos indonésios e que hoje, apesar de protegida por lei, quase não se encontra. A missão agrícola portuguesa tem, para além do café, uma quinta-laboratório dedicada ao sândalo, de forma a tentar repovoar a ilha com esta frágil árvore, cujo óleo vale fortunas. Um metro cúbico da sua madeira é comprado nos mercados internacionais por 20 mil dólares (24 mil euros), já que é uma das mais procuradas pela indústria de cosmética, especialmente para a produção de perfumes. A missão portuguesa já conseguiu fazer crescer 12 mil árvores em condições de serem distribuídas pelo território e pensa chegar às 20 mil até final do ano. "O sândalo pode ser o segundo petróleo de Timor-Leste", diz o chefe da missão agrícola portuguesa.
Uma agricultura de pobreza
Mais de 600 mil timorenses, cerca de 75 por cento da população, dedicam-se à agricultura. Um trabalho de subsistência que está longe de ser suficiente para alimentar o país, como reconhece o relatório do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP). Os dados apresentados revelam que, entre 1996 e 1998, a produção caiu drasticamente.
Um país a perder gradualmente a luz e a Internet
A saída de todo o género de material ao serviço das Nações Unidas em Timor-Leste está já causar graves problemas em diversas áreas, nomeadamente nas telecomunicações e na distribuição de energia.
Salário garantido chega para pouco ou nada
Administrar uma casa, até para quem tem um emprego e salário garantido, não é fácil em Timor-Leste. Mesmo tendo em conta que a grande maioria não paga renda de casa, nem electricidade, nem água, garantir comida na mesa todos os dias é uma tarefa complicada.
O país mais pobre da Ásia
O Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PDNA) revelou ontem um relatório em que classifica Timor como o país mais pobre da Ásia e um dos 20 mais pobres do mundo. Os números revelados no relatório são verdadeiramente assustadores e traçam uma imagem trágica de Timor-Leste. O PDNA estima que o rendimento dos timorenses rondava em 2001 os 478 dólares e que cerca de metade da população vive com 55 cêntimos de dólar por dia. A expectativa de vida é de 56 anos e mais de 43 por cento da população é analfabeta. A taxa de mortalidade infantil é de 80 crianças em mil e 143 crianças em mil morrem antes de atingir os cinco anos. Ainda segundo o relatório, 341 timorenses em cada milhar vivem em pobreza absoluta.
Menos colecta de impostos
A restauração e a hotelaria são dois dos principais contribuintes da Administração das Nações Unidas. Estes sectores pagam 10 por cento sobre a sua facturação e outro tanto sobre as importações. O álcool é o sector mais taxado, já que, além dos 10 por cento, tem ainda uma taxa de dois dólares por litro para o vinho e bebidas brancas e 1,5 dólares para a cerveja. Com a redução do consumo na hotelaria descem também significativamente as importações e com elas os impostos que o futuro Governo de Timor-Leste independente vai cobrar.
Desemprego: números contraditórios e irreais
Ninguém se entende sobre o número de desempregados em Timor. Diversas instituições timorenses e internacionais têm apresentado números que variam entre os 16 e os 80 por cento de desempregados. O Plano de Desenvolvimento Nacional, elaborado pelo Governo timorense em colaboração com a sociedade civil e que hoje será apresentado em Díli na conferência de doadores, reconhece que a questão do desemprego é particularmente difícil, mas revela números completamente irreais.